 |
Roberto Nonato |
Olá!
Se você chegou a esta página, com certeza é um navegador pouco comum. Provavelmente, assim como eu, já visitou várias lojas, marinas, freqüentou o Boatshow, comparou modelos, suspirou desanimado nas páginas da Woodenboat. Onde é que estão aquelas linhas clássicas, aqueles conveses de Teca, aquelas pinturas que parecem espelhos? E cabinas, onde o aconchego da madeira harmoniza tão bem com gaiútas e vigias de bronze?
Talvez, se você foi bastante insistente, já tenha caído na página do Cabinho e, é claro, pensou: será que eu consigo construir um barco daqueles? Será que eu tenho capacidade para um projeto tão complicado? Bom, o que eu posso dizer é: sim, você pode construir o modelo que escolher, do jeito que você quiser, com toda a sofisticação que sonhar. O trabalho em si não é problema. O problema é, simplesmente, tempo. Um modelo simples, como a lancha Diamond 6.0, leva cerca de 1.400 horas de trabalho. Se você é como eu e tem apenas algumas horas disponíveis durante a semana – vamos dizer umas 4 – e o final de semana todo – mais umas 16 horas – isso vai somar, por ano, justamente cerca de 1.400 horas. Bem, então mãos-à-obra! Em um ano você estará navegando, certo? Não, realmente não. Lembre-se: você tem que reservar um tempo para descobrir onde se vendem os materiais de que você precisa, ir comprar estes materiais, comprar ferramentas, consertar as ferramentas, comprar os acessórios para as ferramentas, passar no pronto-socorro para costurar os dedos que ficaram na frente da serra, limpar todo aquele sangue do chão, fazer um banquinho para a esposa que está reclamando de solidão, comprar cerveja para o amigo que veio ajudar, levar o amigo bêbado para casa (ou para o pronto-socorro, com vários dedos a menos – mas nesta altura você já é conhecido por lá). E limpar aquela zona toda, antes que a esposa pense que solidão talvez não seja tão mal assim.
Então, antes de começar, ou depois de se desesperar por não conseguir construir mais depressa, considere que talvez um profissional possa ser mais rápido e tão caprichoso como você, com muitas vantagens. Afinal, aí é você que leva a cerveja, você é que fica dando aqueles palpites chatos, você é que não gostou muito da cor e é ele que fica com os dedos na frente da serra. E, se tudo der errado, a culpa é dele, por não ter ouvido seus sábios conselhos.
Bom, depois de todo aquele tempo construindo e sonhando, mais cedo do que você achava, o barco vai para a água num dia glorioso. Terminou, afinal! Mas, então, porque aquela sensação de nostalgia? Você percebe que aquele barco maravilhoso, que todo mundo inveja pelo desenho, acabamento e segurança, não é o principal. Agora você conhece o Cabinho e o escritório, o dono da marcenaria, da loja de ferragens, você conhece madeiras e fibras, resinas, parafusos de bronze-silício, a enfermeira do pronto-socorro. Você conhece o Flávio, o cachorro, os amigos, a família, todos surpreendentes.
E se você estiver no seu barco, para lá da ilha Vitória, aquele silêncio, uma certa solidão, passe um rádio para a Curruíra. Se o Flávio estiver por lá, você sempre pode reclamar que o verniz dos paineiros está muito escorregadio. E lembrar com saudade do tempo em que seu barco era um monte de tábuas, uns desenhos, umas latinhas de cerveja e muita diversão! |
|
|
|