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Fernando Rodrigues

Pediram-me um depoimento sobre a escolha que Jana e eu fizemos ao decidir pelo Estaleiro Flab para construir nosso sonho de muitos anos. Tentarei ser o mais objetivo possível deixando de lado romantismos piegas e dogmas analíticos extremamente complicados. Vamos lá!

Um homem sem sonhos é um ser insípido, inodoro e incolor. Não tem norte, não tem força interior e não se permite conduzir de acordo com nenhum ideal. Enfim, se senta a beira da estrada da vida esperando o ônibus do fim!

Eu fui criado no meio marítimo. Não tanto náutico no sentido de recreio já que avôs e pai ganhavam suas vidas, criavam seus filhos e passavam por este planeta metidos muito mais em água salgada do que em terra firme. Em minha infância, meus olhares de investigação e curiosidade sobre o meio ambiente que me rodeava, me levaram principalmente a construir um forte elo de ligação com o Mar. Esse elo tão intenso foi baseado no respeito pela magnitude e força dessas águas sempre em movimento e do que elas representam no contexto universal e no equilíbrio natural de todos os fenômenos que controlam a vida na Terra.

Tão forte como o respeito pelo Mar, solidifiquei também uma profunda admiração pelas naves que nele se deslocam. Os barcos, sejam feitos do material que forem, são veículos que tem que lidar com o estado de humor, sempre em constante mudança, do Mar e por conseguinte de todos os outros elementos que nele influem e que por ele são influenciados. Enfim, não é fácil fazer um barco, se pensarmos que o mesmo deve manter seus ocupantes cômodos, aconchegados e acima de tudo seguros, independente do humor que o nosso querido Mar adote nas mais variadas condições e lugares. Desde sua mais primária concepção, o barco tem que ser bem pensado, bem calculado e acima de tudo muito bem construído. Muito bem construído, repito! É aqui que se define a linha que separa as ciências exatas da arte, da habilidade e do amor ao que se faz.

O nosso sonho, meu e de minha esposa, amiga e companheira, Jana, começou a se construir como tal, de uma forma tosca e pouco definida ha já bastante tempo, não menos de 10 anos. No princípio achávamos que seria delicioso, natural, saudável e recompensante passar os anos de nossa maturidade como seres humanos quando, todos os que tivemos oportunidades para tal, podemos usufruir das lições aprendidas e dos valores adquiridos na estrada da vida. Passávamos horas de contemplação em marinas e/ou praias olhando os barquinhos de todos os tipos amarrados em seus piers ou em suas poitas e conjecturávamos utilizando nossa mais criativa imaginação, que tipo de barco nos convinha e qual gostaríamos e teríamos supostamente condições de manejar sem ajuda de terceiros. Eu levava uma certa vantagem em relação a minha esposa devido as lições da minha infância. Às vezes, em nossas conversas, eu sentia que havia uma certa dose de injustiça já que o meu prévio conhecimento e convívio com o Mar e seus veículos maravilhosos se impunha de tal forma que eu terminava influenciando a opinião de minha cúmplice, em favor de meus sonhos pessoais... é, às vezes nós maridos podemos ser terríveis!

Lições à parte, muito foi aprendido e infelizmente às vezes, de forma quase trágica. Entre outras, um acidente com um barco comprado usado, o MITATI, que tinha dois motores centrais a gasolina e no qual as linhas de combustível não foram verificadas como deveriam ter sido antes da viajem inaugural numa tarde de domingo extremamente quente. Durante a dita cuja houve uma explosão a bordo que jogou a família inteira dentro da água agarrados ao isopor que segundos antes carregava mantimentos para a viajem. Queimaram-se a MITATI até a linha d'água e muitas outras coisas adquiridas com muito sacrifício e que se destinavam a melhorar o nosso relax e atividade preferida, a Pesca!

Depois de 1 hora a deriva agarrados a essa caixa de isopor, saímos relativamente bem sendo resgatados pela marinha da Venezuela. Somente o Gutto, meu filho maior, saiu com algumas queimaduras de todos os graus nas pernas. O Guto aproveitou o ensejo para curtir um pouco de mimo em excesso de parte da mãe e do pai. Da minha parte por uma questão de peso na consciência ao assumir a responsabilidade de não haver sido mais criterioso com a manutenção preventiva.

Outra lição atroz, foi a perda de uma considerável soma de dinheiro na compra de um projeto que o projetista me havia garantido estar dentro do meu orçamento. Ainda hoje tenho o projeto mas o barco nunca se iniciou pois o meu orçamento acabaria em realidade no meio da construção do casco. Fui enrolado direitinho por um marketing internacional muito bem feito e construído para enrolar trouxas e almirantes de final de semana. É assim que aprendem todos os que acham que lendo a revistas de náutica se sabe tudo sobre barcos!

Enfim, depois destas e de outras tantas lições aprendidas desta e de outras formas, decidimos estudar melhor o que queríamos e como o queríamos. Estávamos cientes que um barco onde se pretende passar muito tempo, tem que refletir a personalidade dos donos e tem que estar adaptado aos lugares onde ele navegará. Assim, voltamos aos livros, aos relatos e de vez em quando, navegávamos em diferentes barcos para sentirmos como seria nossa relação com cada um deles.

Quando finalmente o bom senso se foi instalando, optamos pelo escritório do Roberto Mesquita de Barros para projetar o nosso sonho flutuante. Este foi sem dúvida o primeiro passo inteligente na realização do nosso sonho.

Por fim, depois de visitarmos vários estaleiros no Brasil, decidimos dar o passo mais inteligente de todos, escolher o estaleiro. Acima quando eu disse que "... o barco tem que ser bem pensado, bem calculado e acima de tudo muito bem construído. Muito bem construído, repito! É aqui que se define a linha que separa as ciências exatas da arte, da habilidade e do amor ao que se faz...". Bem construído muita gente faz. Muito bem construído, estamos certos que o nosso barco o será, depois de conhecermos o Flávio e o estaleiro dele, bem como toda a equipe que o compõe.

O Flávio é um homem muito feliz e que não tem temor a transparecer essa felicidade, ele é o cara que tem por missão fazer amigos, viver em constante paixão com o que faz e por último, mas não menos importante, construir barcos. Nem falemos na sua relação com os seus familiares que ele faz absoluta questão de envolver em seus processos de criação e construção de amizades e barcos. Além de construtor, ele é também psicólogo já que chega ao ponto de utilizar inconscientemente métodos de Psicologia Aplicada para determinar o que o amigo/cliente vai gostar de ver e ter em seu barco; sem contar com as sessões de terapia que recebo grátis cada vez que visito o estaleiro!

No entanto, como profissional desse ramos tão ingrato, o detalhe mais importante no Flávio é o saber escutar seus clientes.

Meu avô, em seus últimos anos de vida me dizia, enquanto eu reclamava de como era velho meu optimist de madeira, que falasse baixinho porque o barco escutava e podia se aborrecer comigo. Ele me questionava como podia eu querer uma "coisa" de plástico sem vida e sem alma quando tinha um barco de "alma". Quando eu lhe perguntava desde quando os barcos tinham alma ele me respondia:

"- Meu filho, todo o barco de madeira tem uma alma nobre, desde e sempre que, o mesmo seja talhado com respeito, dedicação, amor e honestidade de quem o faz; só assim os barcos tem alma. Sabes, - acrescentava - as arvores mesmo depois de virarem tabuas e barrotes, são seres vivos e, embora tu não possas falar com elas, elas entendem o que é respeito, amor e dedicação a tal ponto que sendo assim jamais morrem e a alma que tinham quando ainda eram árvores vivas, passa a ser a alma do barco até muito depois de ele já não navegar mais."

Se o meu avô tinha razão ou não, eu prefiro não arriscar. Quero que o Flávio seja cada vez mais feliz quando, com muito respeito, dedicação, amor, honestidade e acima de tudo paciência começar a construir o meu Trawler no dia 1 de Agosto de 2008. Tenho certeza que terei um barco muito bem construído, com todas as características inerentes aos lugares que pretendo visitar junto com Dona Jana. O Rainha Jannota será a coroação de uma vida de trabalho e de sonhos e acima de tudo, terá uma alma gigante!

... Entretanto, no processo de construção a Jana e eu seremos contaminados pela felicidade e a amizade do Flávio, dos seus mais queridos e de todos os amigos da família Flab... E só lucro!!!!

Que Deus nos abençoe a todos!

Jana e Fernandito Rodrigues

 
 

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