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Joaquim Vasconcellos Ferreira

Ao ver no site do FLAB - Construção Artesanal de Embarcações as primeiras fotos do barco que Flávio começou a construir em novembro de 2007, resolvi traduzir em palavras o sentimento que me envolve desde então.

Passei muitos anos embarcado em navios mercantes de empresas brasileiras, algumas delas extintas. Somadas as milhas navegadas, foram numerosas as "volta ao mundo". Gostava do que fazia. Então, por que desisti da profissão? Basta lembrar o desinteresse que há pelo transporte marítimo, de que é exemplo o fim melancólico do saudoso Lloyd Brasileiro.

Em terra há algum tempo, tenho vontade de reavivar em boa embarcação de lazer lembranças da juventude que marcaram minha vida e deixaram saudade. Daí as indagações que me fiz: Por que preferi o Flávio? Por que escolhi Cabinho e Luís Gouveia?

Tive um barco a motor que não preencheu minha expectativa. Veloz, de 26 pés, era de casco moldado em fôrma, um dos muitos barcos "de série" vendidos no mercado náutico, em que o espaço destinado às acomodações internas (vitrina para compradores desavisados) condiciona a forma do casco, quase sempre sem qualidade marinheira, imprescindível fator de segurança no mar.

Veleiros são belos e tenho grande e respeitosa admiração por quem larga velas por esse mar afora. Mas não entendo nada da arte de velejar. Assim, o barco, de até 29 pés (estadias mais baratas), deveria ter casco de deslocamento e ser marinheiro, estar equipado com motor confiável e econômico no uso e na manutenção, e possuir grande autonomia de combustível e aguada. A acomodação interna precisaria oferecer um mínimo de conforto para morar.

Barco usado estava fora de cogitação. Resolvi então adquirir um projeto de trawler com essas características e contratar um estaleiro, pois não tenho a desejável habilidade para construir barcos. Um projeto de barco cujo preço de construção e o custo da posterior manutenção fossem compatíveis com o orçamento familiar.

Equivocadamente pensava que o ícone brasileiro da náutica, Roberto Mesquita Barros, o consagrado Cabinho, só projetava veleiros. Certa noite (bendita noite!), abri o site do escritório "Roberto Barros Yacht Design" para me distrair e lá estava ele, o trawler que procurava. Descobri que o escritório do Cabinho projeta todo tipo de embarcação, talvez até submarino.

Era importante conhecer de perto o projeto do trawler "Southern Voyager 28" (SV28). E lá fui eu para a Rua Buenos Aires.

Recebido cordialmente pelo engenheiro naval Luís Gouveia e por Joelson, seu desenhista, Luís detalhou o projeto, prestou informações importantes, esclareceu dúvidas que surgiram em razão da vivência em navios mercantes, que se distinguem das embarcações do segmento náutico. Esclareceu que o casco do trawler era o mesmo de um projeto de traineira com assinatura do escritório, barco esse já testado em águas baianas. Se o casco é bem aceito por pescador profissional, é bom para mim, pensei com meus botões, não bastasse ser da inspiração de Cabinho e calculado por Luís Gouveia.

Quanto a morar, aconselhou fazer as alterações necessárias para adequar o interior do barco ao que preciso, sem mexer na estrutura, mudar a potência indicada do motor ou diminuir sua grande autonomia de combustível e aguada.

Nesse mesmo dia, tive a honra de também conhecer Roberto Barros e sua esposa, D. Eillen. Muito agradáveis, fui conquistado pela simplicidade e sabedoria de Cabinho e pela simpatia e sensibilidade de D. Eillen.

Nas vezes que nos encontramos em seu escritório, conversávamos invariavelmente sobre navios e viagens. Cabinho estudava nessa ocasião as possíveis causas de surgimento das ondas gigantes, que, com o advento dos satélites, tiveram sua existência constatada, sendo provavelmente responsáveis pelo desaparecimento misterioso de embarcações de grande porte.

Como eu gostava dessas conversas... Guindava boas lembranças dos porões da memória, como as incontáveis cidades que conheci, e até pedaços não tão agradáveis, como enfrentar mau tempo durante dias seguidos ou cerração em zonas de tráfego intenso sem o auxílio de radar.

Se dúvida havia quanto ao tamanho do barco, tirei-a num salão náutico realizado no Rio de Janeiro, quando fui convidado por Luís Gouveia para visitar o lendário "Fiu". Lá presente e com sua gentileza e fina educação, D. Eillen nos ofereceu, a mim e ao Rodrigo, comandante do veleiro Tanpopo, vinho do porto e biscoitinhos. Naquele Multichine 28 preparado para dar a volta ao mundo, com tudo arrumadinho, os espaços internos bem ocupados (parabéns, D. Eillen!), tive a certeza de que poderia viver em embarcação desse porte. Estava decidido: as recordações seriam relembradas num SV28.

"Procurar um defeitinho" no projeto é perder tempo, em razão da experiência vivida pelo simpático casal Roberto e D. Eillen em barcos pequenos, experiência que é desenvolvida pela engenharia náutica do Luiz Gouveia.

Na última vez que nos encontramos, eu feliz com o projeto SV28 debaixo do braço e Cabinho na porta do escritório para as despedidas, lembro-me que estendeu sua mão direita para o nosso aperto de mãos e, com a esquerda, segurando meu ombro, disse: "Faça o barco com o Flávio, que é competente e honesto".

Em 11 de julho de 2007, fui para Campinas conhecer o estaleiro do Flávio e combinar a construção do barco. Passei um dia muito agradável.

O estaleiro tem galpões organizados, onde ficam os berços dos barcos construídos em fino artesanato. Suas instalações abrigam salas de risco, de corte, de maquinário de marcenaria e de confecção de peças metálicas, entregues aos profissionais cuidadosos e competentes.

Na ocasião, conheci melhor esse bom amigo, a quem tinha sido apresentado no salão náutico mencionado. Flávio é pessoa especial. Preocupa-se não só com barcos, mas, sobretudo, com algo superior: o ser humano. Não o demonstra em palavras, mas com ações, gestos e exemplos. Ajuda pessoas sem outro intuito que não o de lhes ser útil, seja quem for. Esse seu jeito explica por que quer ser um artesão e não mais industrial.

Depois de sentir tanta sensibilidade, observar tal organização e ver o casco, o convés e o acabamento impecável do interior do Tanpopo, pronto para ser lançado ao mar, entendi o porquê da recomendação incisiva do prezado Cabinho ao nos despedirmos à saída do escritório.

O compromisso acertado com Flávio para construir o barco foi comemorado com almoço preparado pelo simpático juiz de direito aposentado e navegador Arutãna Cobério Terena, que, vindo de Belo Horizonte, passava uns dias acomodado no estaleiro, para acompanhar a construção de sua embarcação. Só faltou o Jayme Tamaki, da Yanmar South América Ltda., grande amigo do Flávio, para brindar o fornecimento do pretendido motor confiável e econômico, um Yanmar modelo 3YM30G, de 29HP/3.600 rpm.

Lembrar de Arutãna é lembrar de Fábio Reis, doutor em Física, navegador e conhecido professor de navegação, a quem tive a satisfação de ser apresentado, e que faz parte do grande círculo de amizades do Flávio, nele incluídos seus fornecedores (meu abraço fraternal ao Waldomiro "Afiador", dentre tantos), conforme constatei por ocasião da "virada" do casco do Curruíra 42 do médico Nico Araújo (boa viagem, Nico!) no dia 5 de janeiro último. Ao abrir o site do FLAB, verão nas fotos o entusiasmo desse grupo de amigos, reunidos num sábado muito festivo.

Flávio ficou feliz com o êxito da virada do casco de 42 pés, manobra que executa com muita habilidade, competência e originalidade, visto que não o apóia em nada. Faz girá-lo em um eixo movido por poleames, evitando qualquer tipo de esforço ou avaria.

Só não impede que os convidados tenham grande emoção nessa hora, como a de que foi tomado o simpático e sempre alegre casal "baiano-angolense" Fernando e Jana (Leila e eu mandamos fraternal abraço), cujo barco, o "Rainha Janota", será o próximo Curruíra 46 que Flávio logo, logo começará a construir.

É importante registrar a presença de Luís Gouveia vindo da Austrália, onde está radicado com sua querida família. Juntamente com sua esposa, engenheira naval e filha do belo casal Cabinho e D. Eillen, terão muito êxito profissional com a instalação do escritório Roberto Barros Yacht Design também no país da vela, como o é a vizinha Nova Zelândia. O mesmo sucesso e cuidados profissionais que conservam no Brasil, haja vista a vinda do Luís com a finalidade de tirar dúvidas dos seus clientes e oferecer-lhes sugestões e soluções no tocante à engenharia dos barcos que encomendaram ao Flávio, a par da satisfação que todos tivemos ao vê-lo novamente, particularmente eu, que desfrutei da sua agradável companhia no jantar de confraternização realizado na noite anterior.

Além do resultado feliz que obteve com a virada do casco, Flávio ganhou presentes de aniversário, que comemorava nesse dia: o abraço de sua família e dos amigos e o bolo de "parabéns pra você...", confeitado com o desenho em gelatina do Curruíra, nome do barco de sua propriedade, que agora denomina o projeto Curruíra 42, uma homenagem prestada ao Flávio pelos amigos Cabinho e Luís Gouveia.

A família do Flávio é igualmente especial. Contagia de simpatia e atenção tantos quantos tenham a oportunidade de conhecê-la. A esposa D. Carmen recebeu-nos com mensagem carinhosamente escrita por ocasião da chegada ao hotel onde nos hospedamos no fim de semana, mensagem essa acompanhada de pequeno e bem arranjado vaso de flores naturais para Leila, minha mulher, e de camisa com a logomarca do FLAB para mim.

O FLAB é mais que um estaleiro. É um ateliê de barcos, onde o artista Flávio nos encanta, porque conhece, e bem, a magia da náutica.

Com todas essas qualidades humanas e profissionais, tenho certeza de que Flávio vai fazer do SV28 um bem arrumado "naviozinho". Peço-lhe muita paciência, pois ainda não aprendi a conviver com o contraste entre um petroleiro de 250 mil toneladas de peso morto e um barco de 4,8 toneladas de deslocamento, como tem o SV28.

Obrigado projetista naval Roberto Mesquita Barros, o querido Cabinho de todos que amam a náutica, pelo incentivo que deu para essa empreitada venturosa. Obrigado engenheiro naval Luís Gouveia, pelas continuadas orientações, sempre seguras e esclarecedoras. Obrigado construtor naval Flávio Antônio Rodrigues e sua equipe, pelo belo e bem construído barco que entregarão a este admirador do trabalho que fazem com muito amor e zelo.

Rio de Janeiro, 31/1/2008, Joaquim Vasconcellos Ferreira.

 
 

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